Leonardo Bindilatti é o vencedor da Bolsa de Criação OUT.RA para 2023. Co-fundador da Cafetra Records, baterista dos incríveis Putas Bêbadas, metade dos queridos Iguanas, solo master beatmaker enquanto Rabu […]

João Sarnadas, tcp Coelho Radioactivo, foi o responsável pela abertura do último dia do segundo momento do OUT.FEST 2021, com a apresentação de uma experiência de escuta profunda de música intimamente ligada à do seu trabalho de estreia em nome próprio, dois discos duplos de seu nome "The Hum". Na SDUB "Os Franceses" pudemos ouvir duas horas de improviso electrónico rico em harmonias e texturas nas condições perfeitas para tal: deitados, de olhos fechados, a absorver o som.
Tivemos também a oportunidade de falar com o artista antes e depois do concerto, e é o resultado compilado dessas entrevistas que vos apresentamos abaixo.
Entrevista por Tiago Franco. Fotos de Nuno Bernardo e Pedro Roque (a preto e branco).

Qual foi o teu primeiro contacto com música de longa duração minimal deste género?
Oláolá. Sempre gostei muito de músicas demoradas, não necessariamente em termos de duração da música mas mais no que toca à sua composição e também à utilização de sons mais contínuos. Nem que seja pelo simples facto de muitas vezes haver algum drama associado a músicas longas desse modo e esse drama ser algo com que eu me relaciono facilmente. Assim de repente os meus primeiros contactos com música de longa duração minimal, diria que aconteceram com artistas não muito duracionais ou minimais, as primeiras músicas que me lembro são a “Back to Schinzo” do Pascal Comelade e a “Stranger Intro” do Bill Frisell (Introdução para um disco da Marianne Faithfull) que eram músicas que ouvia bastante quando era miudo. O Pascal é um dos meus músicos preferidos de sempre, e felizmente tem discos que cheguem para se ouvir sempre coisas novas, só há coisa de uns 5 anos é que descobri os primeiros discos mais experimentais dele. A Stranger Intro é um loop de 30 segundos que eu ouvia em repeat, e que decidi fazer uma versão para este disco, se bem que quando a fiz não sabia necessariamente que ia fazer parte de um disco, só a quis experimentar tocar para ouvir o que poderia ser uma versão com mais de 30 segundos, acabou por ser a D1 M Bombarda Transmission. A nível de coisas mais intelectuais, acho que assim o primeiro músico minimal de longa duração em que colei foi o La Monte Young, depois possivelmente o concerto do Terry Riley com o Don Cherry em Köln. Mas não sei se foram essas as minhas inspirações para fazer este disco, até porque a longa duração foi mais um efeito da maneira como eu toco do que um ponto de partida, obviamente que são artistas de quem gosto portanto acabaram por influenciar as minhas melodias e o meu pensamento mas acho que a música acaba por ser um resultado de um número de influencias muito mais abrangente.

Podias falar um pouco sobre o equipamento que usaste neste álbum? Foi construído pela Inês Castanheira, que gere um workshop de sintetizadores DIY. Foi uma comissão ou foi-te entregue a ti com os 3 osciladores?
Sim, o instrumento que utilizei neste álbum, e que uso agora ao vivo, é um sintetizador simples com 3 osciladores e 3 switches de on/off feito pela Inês Castanheira. Felizmente tenho a sorte de partilhar não só a minha vida como casa com a Inês, o que faz com que tenha facilmente acesso às cenas que ela constrói, este em particular foi um dos primeiros que ela construiu, porque estava na altura a explorar o campo da construção de sintetizadores, e é assim simples precisamente por esse motivo. Começámos a usar este synth e outro num projecto que temos os dois chamado Well, e eventualmente comecei também a usa-lo em peças colectivas da Favela Discos como por exemplo a peça Desilusão Óptica. Foi um bocado com esse background que fui desenvolvendo a abordagem ao material que tenho neste disco, à base do uso deste sintetizador, da mesa de mistura, de loops e outros pedais de efeito.
Gravaste o disco em 2 dias, o que resultou em 8 horas de gravações, em que demoraste 3 anos a reduzir a 2 discos de 2 horas cada. Que métodos de condensação usaste e que desafios encontraste no cutting room?
Bem, na altura quando fiz essa sessão de gravação não estava já com ideia de fazer necessariamente um disco. Como disse em cima, simplesmente sentia que tinha chegado a uma maneira de tocar diferente do que fazia por exemplo com Coelho Radioactivo, e que queria gravar alguma coisa com essa “linguagem”. Na verdade sinto que o The Hum até acaba por ter algumas coisas de Coelho, creio que as melodias acabam por ter algo a ver com esse universo, assim como a utilização de loops que era uma coisa que fazia bastante ao vivo e quando tocava sozinho em casa. Na altura tinha ficado com a mesa do Nuno Loureiro em minha casa porque a tinha usado num concerto de Desilusão Óptica e aproveitei para fazer esses dois dias de gravações, que como disseste resultaram em 8 horas. Na verdade até foi mais de 8 horas, foram cerca de 11 horas, mas eu não costumo contar essas 3 horas extra porque não estavam fixes à partida. Basicamente o grande desafio foi perceber o que é que tinha em mãos, que creio que se dividia em dois problemas, primeiro o de reduzir as músicas de maneira a que tivessem uma duração minimamente aceitável para que fossem mais fáceis de perceber como uma música, e o segundo de perceber o que é que eram aquelas músicas, se eram três discos… se era um… se eram dois… Qual era o percurso / ordem que fazia sentido… Quais eram os modos das músicas etc… Eventualmente consegui simplificar a coisa em dois discos, um mais drone, outro mais ambient, ou um mais atonal, outro mais melódico, ou um mais nocturno outro mais diurno, mas ao longo desses três anos fui agrupando as músicas com conceitos bastante diferentes, que provavelmente não são tão claros mas que me ajudaram a perceber o que eram estas músicas.

Li algures que foste informado pela ‘harmonia única de cada cidade que viveste’, podias falar um bocado sobre isso? Vês algum cruzamento entre a tua música e a arquitectura?
Isso na verdade, apesar de ser inspirado em coisas que eu sinto em relação ao disco, ao processo e ao que eu andava a pensar na altura em que fiz o disco, é um bocado Mumbo-Jumbo de Press. Fico sempre um pouco na dúvida entre conceptualizar ou não a música que faço, normalmente não crio coisas previamente definidas por um conceito, a única coisa que me interessa na altura da gravação é a minha intuição, e se estou a gostar da música que estou a fazer. No entanto por outro lado, o pensamento do som é uma coisa que me interessa, e que acabo por fazer no meu dia a dia por vários motivos, seja simplesmente por ler coisas sobre música e som, seja por comunicar sobre o que faço a solo ou colectivamente com as pessoas com quem trabalho no dia a dia, como por exemplo com o resto da malta da Favela Discos quando desenvolvemos peças colectivas: obviamente que precisamos de verbalizar sobre o que queremos fazer, e eventualmente queiras conceptualizar ou não o que fazes acabas sempre por ter alguns pensamentos sobre o que é aquilo que estás a fazer. Nesse sentido uma coisa que me interessa, por exemplo, é a relação entre a ambiguidade e a audição profunda. Da mesma maneira que com uma audição profunda consegues descobrir melodias, ritmos, tons, etc na paisagem sonora de uma cidade, também consegues ir percebendo novas camadas sonoras no tipo de música que eu faço, por entre as melodias mais óbvias consegues perceber outras melodias, assim como as consegues distinguir no meio da massa sonora e do ruído. Nesse sentido acho que a relação com a paisagem sonora da cidade acaba por ser essa, a de descobrir alguma lógica musical no meio da massa sonora a que estamos expostos, entre carros, ventoinhas e turbinas, aquelas cenas barulhentas de ar condicionado, e todas as coisas que fazem o chão sonoro que por vezes nem nos apercebemos que está lá.
O fenómeno global do ’The Hum’, com relatos de pessoas quase perseguidas por frequências ultra baixas em zonas residenciais ou industriais, é considerado um som desagradável, que causa insónias e dores de cabeça. São os últimos efeitos que iria descrever ao ouvir o teu disco. O disco tenta redimir este tipo de som e pô-lo num contexto diferente?
Bem, em primeiro lugar obrigado pelo elogio. Agora, em relação ao fenómeno do The Hum, creio que ele é desagradável também porque é um som intruso, indesejado e permanente, mas não sei se num concerto de música experimental esse som não seria aceitável (risos). A minha ideia não é bem redimir o fenómeno, simplesmente acho que adoptei o nome assim como um termo mais abrangente, como disse em cima acho que o meu The Hum fala mais do som das cidades que não nós é perceptível imediatamente. O fenómeno do The Hum também não é audível por todas as pessoas, aparentemente parece haver pessoas que são mais sensíveis a esses “Hums” e outras que não são tanto. Ou seja não me interessou falar de um som violento que persegue as pessoas mas simplesmente de um som que só ouvimos quando despertamos para a sua existência ou algo assim. Interessa-me a ideia, mas não me interessa tanto a text-book definition do conceito, e como em relação à música, dos principais motivos pelo qual escolhi o nome foi por intuição, gostei da mística da ideia e pareceu-me um nome fixe. Para além disso também aproveitei este tema e título para uma banda desenhada, que foi editada pel’ O Panda Gordo em 2016 ou 2017, e na altura achei que seria fixe ligar as duas coisas por trabalharem um pouco a mesma ideia de maneiras muito diferentes.

Como achas que o disco e a música muda quando tocas ao vivo? Fizeste alguns ajustes para o concerto do OUT.FEST?
Bem eu na verdade não estou mesmo a tocar as músicas do disco, o que eu estou a fazer é utilizar os mesmos meios e técnicas para criar novas músicas. O disco foi criado em improvisação, que é o que faço ao vivo, sendo que ultimamente já tenho levado alguns loops iniciais gravados para não ser tão boring. Durante os ensaios ainda tentei replicar algumas das músicas dos discos, mas não gostei do resultado, por estar muito preocupado em tentar fazer que a música soasse igual ao disco acabava por fazer uma cópia foleira da música do disco, que nem soava 100% igual ao disco, nem era uma música tão interessante como as do disco. Portanto achei melhor simplesmente usar as técnicas que usei no disco para criar algo novo, que não é o que está no disco mas que de certa maneira faz parte daquilo que é o disco. Para o OUT.FEST a única coisa que fiz de especial foi escolher uma série de loops à partida para usar, mas a preparação do concerto foi toda muito caótica porque foi a primeira vez que usei a cenografia e foi assim tudo mesmo em cima da hora. Acho que assim o maior ajuste que fiz para o concerto foi mesmo a existência da cenografia da “cidade” ou como lhe quiserem chamar, era algo que eu já queria fazer desde o início e que ainda não tinha feito, e fiquei bastante contente com o resultado.
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