Angélica Salvi - Entrevista

Angélica Salvi é uma harpista espanhola radicada no Porto há alguns anos, que tem erigido um trabalho exploratório no seu instrumento com uma variedade realmente heterogénea de colaboradores musicais e transdisciplinares, ainda que essencialmente focada em trabalho de improvisação. Para além de leccionar no Conservatório de Música local, já realizou trabalho como solista com a Orquestra Sinfónica da Casa da Música ou o celebrado Remix Ensemble.

Das suas colaborações com músicos icónicos como Han Bennink ou Evan Parker, do que lhe conhecemos em palco e de discos, o seu vocabulário vai sempre se adaptando – mantendo a identidade – de acordo com contexto e ideias, a nível de timbragens e efeitos. A ver o seu discurso solista, que já foi apresentado por diversas vezes pela Europa e Estados Unidos.

Tivemos a oportunidade de conversar com ela antes da sua actuação no OUT.FEST 2019, e convidamo-vos a ler o resultado dessa conversa abaixo.

Quando e porque é que te mudaste para Portugal? O que te fez ir para o Porto, especificamente?

Eu estava a morar na Holanda, onde estudava, e recebi um e-mail de uma professora a dizer que precisavam de alguém para dar aulas de harpa no Conservatório de Música do Porto e perguntou se eu tinha disponibilidade. Pensei, por que não? Assim, em Setembro de 2011 mudei-me para o Porto. Entretanto ia e vinha da Holanda uma vez por mês para acabar o mestrado que tinha começado.

Há quanto tempo começaste a tocar harpa?

Desde os meus 11 anos.

E o que é que te levou a apostar neste instrumento em particular?

Foi uma coincidência. Naquela altura, eu tinha começado a estudar piano. Eu fiz as provas para estudar no Conservatório e quando fui aceite escolhi piano como primeira opção e harpa como segunda (por ser o mais parecido). Não havia vagas para piano e fiquei em harpa. Gostei, apesar de na altura não conhecer bem o instrumento.

É o teu instrumento principal, mas houve alguma vez em que decidiste mudar de instrumento, ou houve algum outro que te tivesse cativado?

Eu tinha um piano em casa (a minha mãe estudou e tocava piano) e houve uma altura em que tocava piano e harpa, e para mim os dois instrumentos têm muito em comum. Embora goste muito de outros instrumentos para alem destes dois, nunca decidi explorá-los a sério.

Quando te começaste a interessar pela improvisação? Normalmente não é algo muito ensinado em escolas, especialmente para a harpa… houve algum momento, alguma ideia, artista ou concerto que te tenha despertado o interesse nesta abordagem à música?

Bem, eu sempre estive muito interessada na parte criativa artística em geral. Andei 3 anos nas Belas Artes,  gosto muito de desenhar e sempre gostei de inventar coisas novas. Na minha escola tive um método de ensino muito conservador (ainda bem que depois mudaram um pouco as coisas), portanto tive de procurar e explorar por mim. Procurava algum tipo de liberdade e a única alternativa que eu encontrei naquela altura (que fosse mais alem da música escrita) foi o Jazz. Tive algumas aulas de jazz, conheci uma professora de harpa que dava aulas de jazz na Universidade do Arizona e fui estudar com ela durante ano e meio. Depois continuei os meus estudos na Holanda no Conservatório de Música e na Dutch Impro Academy, onde conheci aos músicos da ICP Orchestra e da Brokken-Fabriek  (Amsterdão), desta forma descobri o mundo do free jazz.  Por tanto a improvisação faz parte do meu percurso já alguns anos.

Falei com o Peter Evans há alguns dias e ele disse-me que tem sempre dificuldade em ensinar às pessoas a forma “correta” de tocar música, e que o método de ensino dele não é tanto mostrar como se “deve” fazer algo, mas sim servir de guia para novas possibilidades musicais. Também tens algumas dessas dúvidas, sobre a melhor forma de ensinar música e harpa? Como é que guias os teus alunos nas suas aprendizagens?

Eu tenho sempre muitas dúvidas… nós, os professores, estamos sempre a aprender coisas novas com os alunos.  Falo sempre com muitos colegas e também com os meus alunos para experimentarmos diferentes métodos e fórmulas. Alguns dos meus alunos são muito jovens, por isso tenho de tentar encontrar um equilíbrio entre o que é a parte criativa e a parte teórica. Por um lado, eles têm de aprender a parte teórica (apesar de que as vezes isso seja um pouco repetitivo e monótono) para conseguir atingir uma certa técnica e posição de modo a dominar minimamente o instrumento. Às vezes é um pouco complicado porque requer muita paciência, consistência e rotina.  É uma espécie de arte marcial.

A procura desse equilíbrio, é que não é nada fácil. Também depende muito das pessoas, da personalidade de cada um, por isso é importante adaptar as aulas a cada aluno e perceber o que cada um gosta ou com o que se sente mais à vontade.

E depois pronto, a partir de aqui sim, concordo com Peter Evans: o professor deve servir como guia para novas possibilidades!

Tens alguns projectos para o futuro próximo que gostarias de divulgar?

Tenho vários projectos a acontecer, estão todos no meu website: www.angelicasalvi.net.

Tu já colaboraste com vários músicos Portugueses, como por exemplo, o Rafael Toral – sentes que haja alguma abordagem à música, particularmente improvisada, que seja única aqui em Portugal? Claro que toda a gente tem a sua personalidade, mas achas que há algo de especial na abordagem desta comunidade em Portugal?

Acho que cá em Portugal os artistas tem uma coisa muito fixe. Julgando pelo que vi, parece-me que os músicos que conheci tem todos projectos e colaborações muito diferentes, não fazem uma coisa só ou gostam de um estilo especifico, são muito abertos e dominam áreas muito diferentes que se complementam.  Esta forma abrangente e livre de abordar a arte, permite criar projectos colaborativos muito interessantes.

Tinha a sensação, sobretudo quando morava na Holanda, que nos últimos tempos há uma tendência para a especialização: na educação, nas artes... parece que um artista tem de ter um estilo muito específico predefinido, até com certas regras para conseguir encaixar em algum lado ou ter uma etiqueta (muitas editoras fazem pressão constante aos artistas com este tipo de coisas). Penso que isto é um caminho errado porque o resultado acaba por ficar formatado, globalizado e aborrecido... por isso sinto-me muito feliz neste país, penso que os artistas conservam e protegem muito a sua essência e acreditam mesmo em aquilo que fazem. Esta é a experiência que tive com o circulo de músicos que me adotaram.

Entrevista por: Tiago Franco

 

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