Leonardo Bindilatti é o vencedor da Bolsa de Criação OUT.RA para 2023. Co-fundador da Cafetra Records, baterista dos incríveis Putas Bêbadas, metade dos queridos Iguanas, solo master beatmaker enquanto Rabu […]

We spoke with Ernesto González (Bear Bones, Lay Low and other projects) before his performance at ADAO about his Portuguese tour, the Belgian and Venezuelan music scenes and much more. You can read it all below:
Foto cortesia do Pedro Roque - Eyes of Madness
Hi Ernesto, you’ve been touring Portugal for a little while now, what’s your experience been like so far?
Sim, tenho estado em bastantes sítios desde o norte até aqui ao Barreiro, e tem sido bastante especial na verdade...eu não sabia bem o que esperar, mas tem mesmo excedido as minhas expectativas – tenho tocado em todo o tipo de espaços todas as noites, conhecido pessoas mesmo maravilhosas e mágicas, e os concertos tem sido constantemente bons, mesmo eu sendo bastante crítico do meu próprio trabalho...não sei, esta tour tem sido tipo: “Isto é fixe, não estou a fazer tantas asneiras, ou então estou a enganar-me da maneira certa...” e o pessoal tem gostado da música todas as noites, apesar da ideia que eu tinha dos públicos em Portugal serem mais reservados. Pelo menos em muitos dos sítios onde toco, como só sou eu a tocar, as pessoas chegam, estão meio silenciosas ao inicio e depois dependendo da situação podem começar a entrar mais na coisa e começar a dançar. Mas é engraçado, pensava sempre que não estavam a gostar muito, mas depois no fim era tudo bastante bem recebido. Por isso sim, isto tem sido uma tour memorável, graças à Ya Ya Yeah Music.
Your music has a very deeply organic feel, despite your usage of electronic paraphernalia. Can you tell us a bit about Bear Bones, Lay Low’s history, inspiration and references?
Comecei este projecto talvez há 11 anos, ou até mais, tinha 16 anos...as primeiras gravações que fiz foram lançadas com este nome. Isto era suposto ser só um projecto de noise – quando tinha 16 anos gravei muita coisa sozinho inspirado pelo underground do noise e da música psicadélica que estava a acontecer no inicio de 2000, principalmente coisas dos Estados Unidos e da Europa. Foi quando cheguei à Europa, à Bélgica, desde a Venezuela que entrei mesmo nesta música underground, notei que toda a gente estava a fazer a sua própria cena e isso inspirou-me, e comecei a explorar várias coisas diferentes, um era uma espécie de projecto de folk psicadélico, o outro era suposto ser mais noise com guitarras...e Bear Bones era mesmo um projecto de harsh noise com coisas simples, e era o projecto de que eu gostava menos, na realidade (risos). Mas como era a única coisa que conseguia fazer ao vivo, acabei por começar a tocar com esse nome, e tudo o que andava a fazer na altura acabou por se fundir no que faço agora, no projecto Bear Bones, Lay Low.
Então o projecto continuou a evoluir – quanto mais ouço diferentes tipos de música mais eles me influenciam, e acabo por aplicar o que aprendi de outros discos e músicos no meu som. Um evento importante foi quando um amigo meu apareceu com um Korg MS-10, um sintetizador analógico, e isso mudou mesmo a minha vida – eu não sou um viciado em sintetizadores mas adoro-os, esses sons electrónicos...isso foi o ponto de viragem, e comecei a desenvolver mais a minha música em vez de ficar só no noise e no drone, que era o que fazia com as cenas de Bear Bones até ai 2009 e 2010, e comecei a fazer musica mais parecida com, tipo, música cósmica...ouvia coisas como Cluster, os primeiros discos de Tangerine Dream, toda essa música alemã, o Conrad Schnitzler deixou-me parvo, ainda me deixa parvo hoje em dia, é um dos artistas que eu mais admiro.
Eventualmente comecei a tocar com outro amigo meu chamado Mike, criamos uma banda juntos chamada Tav Exotic, e começamos a tocar coisas mais...vamos dizer música de dança, coisas electrónicas mas com ritmo, e eu também comecei a integrar isso com Bear Bones, por isso agora é um misto de musica electrónica cósmica e repetitiva com ritmos pesados e um som meio maximalista, tentar fazer sons que são mesmo gigantescos...inspiro-me muito nos Skullflower e Sunroof, essas bandas ainda me inspiram hoje em dia...Tudo isto evoluiu de aprender com outros discos, ouvir muita coisa, gosto sempre de descobrir musica nova...não sinto que tenha algo de particularmente original, só pego em coisas daqui e dali e faço uma colagem.
Over the years you’ve been a part of several projects, including Silvester Anfang, Steenkiste / Hellvet, and recently Tav Exotic (with Weird Dust), and released splits with many artists: what do you look for in these collaborations and how does the creative process differ from your own solo music?
Suponho que quando começo a colaborar com outras pessoas que isso de alguma forma começa de uma ideia que tivemos juntos. Com os Tav Exotic, o Mik também tem muitas influências de música cósmica, temos gostos muito similares, mas a abordagem era suposto ser um pouco menos...barulhenta, queríamos fazer mais coisas com beats... Mas agora que penso nisso, nestas colaborações e projectos acaba tudo a ser o que sai naturalmente – quando o Mike e eu tocamos fazemos este tipo de coisa, música electrónica sequenciada e repetitiva, estás a ver? Quando toco com os meus amigos do Jooklo Duo, a Virginia e o David (temos um projecto de electrónica abstracta chamado YADER), o que fazemos são improvisações electrónicas, por isso vejo isto mais em termos de ficar a conhecer as pessoas, é como uma conversa que consigo ter com algumas pessoas. Tu não usas a mesma linguagem com toda a gente, não falas com os teus avós da mesma forma que falas com os teus amigos, e é a mesma coisa nestas colaborações, é um dialogo e um processo de ficar a conhecer pessoas, e o que sai é uma extensão natural desta comunicação, por isso embora possam haver ideias precisas sobre um som, tudo aquilo em que me tenho envolvido tem sido sempre bastante orgânico, digamos assim...
Estou sempre a tentar fazer música com outras pessoas e acho que a melhor forma de o fazer é quando são só duas pessoas, talvez três...quer dizer, nos Silvester Anfang éramos tantos que mais para o fim, por volta de 2012 (eu juntei-me à banda em 2006) começou a ser difícil – éramos sempre entre seis e oito, nove pessoas, e ao fim de algum tempo toda a gente começou a afastar-se, enquanto que se forem só duas pessoas dá para se fazerem coisas maravilhosas, é como um bom casal...(risos)
It’s hard to manage a big band especially because there’s always someone who has to take the lead, and not everyone is alright with that arrangement…but it’s a mirror of how society works, you can kind of draw a parallel line there, some people are more eager to take initiative to create a structure, other people are there to question that structure, other people have more of a background role, and everybody kind of finds their own place to make things work, but when you don’t know your own place and you start criticizing other people’s roles, that’s when things start to get dysfunctional and it just kind of breaks apart. What I’ve learned in that band is that’s very important to know your place, sometimes you’re the leader, sometimes you’re in the background, you just have to learn it.
Are there any specific artists you’d love to collaborate with?
Deixa ver… Fogo, claro que adorava fazer uma jam com o Matthew Bower, eu adoro-o, isso seria incrível, só tocar guitarra com aquele gajo. Hmm…a maior parte das pessoas com quem estou ansioso por colaborar são amigos, tirando esses heróis que sempre tive, como o Matthew Bower, o Ben Chasny dos Six Organs of Admittance...fico mais excitado ao conhecer novas pessoas com as quais posso criar uma amizade e fazer música. Recentemente conheci umas pessoas com as quais estou bastante interessado em começar algo, como uma banda do Reino Unido chamada Guttersnipe, não sei se já ouviste falar deles, mas são uma cena mesmo freak rock, rock maluco, um duo meio tipo Arab on Radar mas mais dementes, e a guitarrista tornou-se uma grande amiga minha e começamos a colaborar e a fazer música juntos. É difícil pensar nisto assim de repente...talvez tocar com os Black Witchery também fosse fixe (risos). Eu estou sempre aberto a fazer música com pessoal, só juntarmo-nos e tocar, e se a coisa funcionar...isso é que me deixa excitado.
You’ve been living in Brussels, Belgium for many years now, can you tell us about the city (and the country’s) music scene and how it welcomed you? Are there any good bands or musicians you want to recommend?
A cena tem mudado desde que me mudei para lá – sinto que em Bruxelas o underground hoje em dia cresceu, pelo menos o tipo de música pela qual me interesso e o tipo de sítios a que vou...em grande parte devido à enorme quantidade de Franceses que vieram viver em Bruxelas e que dão muita vida ao underground lá, sinto que se não fossem eles...ainda está lá a velha guarda que tem feito coisas desde sempre no underground experimental, no underground da música livre – gosto de lhe chamar isso porque é só uma área aberta para todos os tipos de música onde o estilo não é muito importante, mas sim a iniciativa de fazer música pelos teus próprios meios.
Por isso sim, no underground da música livre não há assim tantas associações e organizações genuinamente belgas a fazer coisas acontecer, mas felizmente há todo este pessoal estrangeiro a vir fazer coisas, abrir espaços...mas também há tantas coisas que ainda não conheço em Bruxelas, mesmo passados 15 anos lá, a cidade está cheia de surpresas e isso é uma coisa muito fixe sobre a Bélgica – não parece assim tão divertida à superfície, parece um sitio cinzentão, mas se fores procurar encontras todo o tipo de coisas incríveis a acontecer....
Posso sempre recomendar a Orphan Fairytale, é uma artista incrível de Antuérpia. Ela não anda a tocar assim tanto ultimamente mas ainda faz música, e toda a gente devia espreitar os discos dela porque são mesmo lindos e únicos, ela é um dos nomes grandes e importantes no underground Belga e vai sempre ser mencionada. Tipo, até estive na Peakaboo Records em Lisboa e eles tinham um disco dela. Também há uns Franceses a viver lá não sei há quanto tempo, mas são amigos meus, um deles é o Loto Retina e é assim um geniozinho, tem tipo 24, 25 anos mas é muito avançado, faz música digital abstracta maluca mas com imensa alma e com skills, e há um amigo dele, um Francês chamado Apulati Bien, ele faz música electrónica esquisita inspirada pelos primórdios do Jungle e do hip-hop do sul nos Estados Unidos, mas misturado com umas vibes malucas à Asmus Tietchens...a lista continua, a namorada do gajo, a Victoria, é uma artista sonora incrivel, faz umas peças de rádio mesmo fixes, e há outros gajos que tem uma label chamada Third Type Tapes, eles lançam beats e noise e organizam estas festas loucas, andam agora a trabalhar num sound system para poder viajar de um lado para o outro e se tudo correr bem também vou poder viajar com eles...em Gent há o Kohn, que também é uma figura importante na música electrónica Belga, o tipo já faz tanta coisa diferente...eu podia continuar, as coisas vão surgindo, mas deviam investigar, ficavam surpreendidos com a quantidade de coisas que acontecem lá.
I feel like the situation here in Portugal is sort of similar, if you’re not in the country you’re not familiar with all of the stuff that goes on here.
Sim, esta tour foi fantástica, esta é a ultima noite, mas uma coisa que me aborreceu um bocadinho foi não poder partilhar o palco com mais artistas Portugueses. Só no Porto – toquei lá duas vezes, um show a solo e um em colaboração com um percussionista, o João Pais Filipe e o Julius Gabriel, um saxofonista alemão que lá vive (nota do editor: os dois formam o duo Paisiel), e até gravamos esse concerto, a ideia é lança-lo se tudo correr bem, mas tirando essa noite e hoje não pude ver mais nenhuns artistas Portugueses, e sei que há muitos...Por isso sim, estou ansioso por ver o Ricardo (Martins) tocar bateria. E espero que a próxima vez que cá venha possa explorar mais, porque parece uma cena musical muito interessante, não só na música experimental como no que toca aos DJs...
É a primeira vez que venho cá a sério, estive cá há 5 anos em tour com Tav Exotic, a Orphan Fairytale e mais algumas pessoas, fizemos uma tour em que eramos 6 ou 7 pessoas num autocarro péssimo a vir directos da Bélgica, viemos cá e demos alguns concertos nas Caldas, no Porto, Lisboa, e mais alguns sitios....quando viajas com tanta gente parece que estás numa matilha sabes, estás numa família, mas agora que estou a viajar sozinho consigo perceber e aprender mais sobre o país. Espero conseguir ir ainda mais fundo para a próxima.
What was the Venezuelan music scene like before you left? Do you keep in touch with other musicians there at all? How do you feel about the country’s current situation?
Bem, eu sai bastante jovem, aos 15, por isso nessa altura não estava em nenhum tipo de cena, tinha uma bandinha e tocávamos na escola, em festas, coisas assim. Não estive muito envolvido quando lá estava mas depois quando me mudei para a Bélgica e comecei a lanças coisas de Bear Bones e a por música no MySpace descobri um tipo chamado Álvaro Partidas que fazia música noise, harsh noise, lá na Venezuela, e contactei-o logo. Eu tinha 16 anos e ele tinha ai uns 30 na altura por isso quando nos encontramos ele ficou logo tipo “meu, tu és um puto, mas que raio”, porque falávamos online e nos conhecemos quando eu costumava voltar muito à Venezuela no verão (infelizmente já não volto lá há 5 anos). Mas desde o momento em que nos conhecemos começamos a dar concertos juntos, e os mais memoráveis foram numa espécie de galeria de arte chamada “Organización Nelsón Garrido”. Esse gajo, o Nelsón Garrido, era um fotografo e tinha imensas fotos mesmo sangrentas de orgãos e coisa do género, acho que muito material dele foi usado por bandas de grindcore, mas o sitio era maravilhoso e era o único sitio onde podíamos tocar música noise e as pessoas gostavam, porque sempre que tocávamos em bares as pessoas ficavam mesmo zangadas e começavam a gritar “isto não é música, isto é poluição”...Lembro-me de tocar em bares de desporto e as pessoas ficavam sempre com um ar de “o que raio se está a passar aqui”, mas chateadas, para eles não era música...
Mas sim, essas foram as minhas únicas experiências com a cena musical na Venezuela. O Álvaro ainda lá está, falamos recentemente mas já não o fazíamos há anos...espero que ele venha à Europa e que possamos fazer uma tour juntos, ele tem lá outra banda, um trio noise com guitarras....mas sabes, a situação na Venezuela agora está tão incerta, caótica e catastrófica que não há mesmo tempo para este tipo de coisas, as pessoas estão ocupadas com a sua sobrevivência, ou então estão a sair do país. Já todos os meus amigos da minha terra saíram – eu fui o primeiro em 2003, mas a partir dai todos os anos sai mais alguém, e mais alguém, e no ano passado já tinham saído todos, acho que não tenho nenhum amigo de infância ainda a viver lá. Tenho lá família, a minha avó, os meus pais, por isso tenho mantido o contacto, mas já não vou lá há cinco anos...Acho que está na hora de voltar, sabes? Deixa ver o que acontece com toda a loucura que se está a passar por lá.
What’s next for Bear Bones, Lay Low? Any new music on the horizon?
Sempre, mas sou muito lento a gravar e tenho dado muitos concertos...mas estou sempre a gravar, e quando acabo alguma coisa mando-a ao pessoal que me pede...mas acho que assim que voltar a casa tenho mesmo que acabar um split com o Black Zone Myth Chant, de França. Ele é um amigo meu, já nos conhecemos desde que ele tocava musica psicadélica de guitarra enquanto High Wolf, e finalmente vamos fazer um split juntos depois destes anos todos. Também tenho um EP ai a vir com uma música de para ai 15 minutos, mais um remix que alguém vai fazer, para uma nova editora de uns gajos em Offenbach que fazem festas chamadas Hotel International, chamada Ok Spirit.
Também tenho que acabar coisas de Tav Exotic quando voltar a casa, mas logo três dias depois vou em tour com os Jooklo Duo (tens que ir espreitar as coisas deles, eles são incríveis) e depois vamos fazer uma residência em Roterdão, num estúdio de sintetizadores louco que têm por lá...também tenho uma banda nova chamada Carcass Identity, que é mais techno, e vamos começar a dar concertos.
Por isso sim, ando sempre a fazer coisas, mas não tenho pressa de lançar discos ou fazer seja o que for, acho que as coisas saem quando têm que sair. Não vejo grande sentido, nos dias que correm, de ter esta pressão de “vais em tour, tens que ter um disco” - já não estamos nos 60s, se quiser partilhar música posso po-la online de graça e chega às pessoas mais depressa, por isso os discos para mim têm que ser algo que vá durar... esse é o verdadeiro propósito dos discos, não algo para vender, mas algo que deixas para trás...os discos, especialmente o vinil, se se molharem ou ficarem bolorentos ainda ficam meio utilizáveis, só desaparecem com um desastre natural, mas a informação digital parece mais frágil e que pode desaparecer assim do nada...apesar de precisarmos de todos esses formatos. Mas sim, não tenho pressa, estou a fazer as coisas dia a dia.
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Desempenho de funções de coordenação de comunicação, integrando a equipa permanente da associação, assegurando, em articulação com a direção artística e com o responsável pelo arquivo media e produção vídeo, […]
The 19th OUT.FEST will take place on 5-7 October of this year. We return to Barreiro with the best annual meeting point to delve into the various possible worlds of Sound and to celebrate the miracles of Music, to explore the city and (re)experience community as a space of liberty.
OUT.RA is once again accepting applications from local artists to develop creative work related to Music / Sound / Sound Arts / Multimedia during 2023.