Leonardo Bindilatti é o vencedor da Bolsa de Criação OUT.RA para 2023. Co-fundador da Cafetra Records, baterista dos incríveis Putas Bêbadas, metade dos queridos Iguanas, solo master beatmaker enquanto Rabu […]

Na semana anterior ao momento de Outubro do OUT.FEST 2021, tivemos a oportunidade de conversar com Vasco Alves - gaiteiro de bancada d'Os Belenenses, membro de VA AA LR e investigador heróico da materialidade do som e da natureza dos fenómenos acústicos, que tem tido um percurso discreto mas sempre fascinante recorrendo a várias fontes e metodologias que passam pelo uso de rádios quitados, gravadores de fita, processamento de sinal, técnicas de síntese e – em tempos mais ou menos recentes – a gaita de foles.

Podes falar-me um pouco sobre o teu percurso com a gaita de fole? Como é que começaste a tocar e como é que a tua relação com o instrumento se desenvolveu ao longo do tempo?
Comecei a aprender a gaita de fole em 2014 no Centro Galego de Lisboa, e nos primeiros anos tive uma aprendizagem tradicional, mas sempre tive a vontade de usar o instrumento de uma forma talvez menos convencional, mais exploratória, mais próxima dos temas que me interessam, e isso foi algo que eu só consegui começar a fazer alguns anos após ter começado a tocar. Acho que foi há cerca de três anos e tal, talvez em 2018: comecei a preparar algumas peças que apesar de também incluírem algum material electrónico, trabalham fenômenos acústicos e a psicoacústica acima de tudo. Tento explorar sempre algum tipo de efeito nesse campo.
E o que é que te levou especificamente a este instrumento? Porque em 2014 já fazias música, certo?
Sim, já tocava há bastante tempo…eu tive duas experiências que foram algo surpreendentes, tanto que quando ocorreram eu nem pensava que fosse um dia aprender um instrumento. Uma foi um concerto do Paul Dunmall em Londres - ele está mais associado até ao jazz e ao improv como saxofonista, mas tem uma coleção pessoal de gaitas de fole de todo o mundo. Eu e um amigo convidamo-lo para um concerto que estávamos a organizar quando eu vivia lá, e ele teve uma actuação onde tocou com várias gaitas de fole ao longo da performance, e houve ali momentos incríveis, que eu não esperava, mesmo a nível material do som...quando a gaita era amplificada, se fechasses os olhos imaginavas que era um concerto de laptop, de música de computador...bem, havia elementos bastante surpreendentes, e depois quando voltei para Portugal, em 2014, acabei por ver um ou dois concertos em que o instrumento também era utilizado, já fora deste contexto, mas na altura decidi ir aprendê-lo, de uma forma um bocado espontânea. E pronto, gostei e continuei e neste momento é possivelmente o instrumento com que estou a trabalhar mais, apesar de também explorar temáticas parecidas às da gaita quando trabalho com electrónica.
Continuando nesse tópico, quando é que ganhaste o interesse em música eletroacústica? Houve algum momento específico no qual encontraste essa música e achaste que era por aí que ia seguir o teu percurso musical?
Não sei se consigo definir um momento em particular, penso que provavelmente também terá muito a ver com as coisas que fui ouvindo na adolescência, e que me levaram a ter algum interesse em explorar, e em seguir pelo lado mais exploratório da música, ou menos convencional, por assim dizer. Também nos anos da universidade, se não me engano, aprendi a fazer uns microfones de contacto e outras pequenas coisas (acho que até as primeiras gravações que fiz foi com esse material, ainda de uma forma muito naïve e muito intuitiva), e pronto, as coisas foram acontecendo, fui continuando a interessar-me também pela construção de instrumentos, pela exploração de materiais, e a coisa foi evoluindo por aí. Obviamente que as coisas em que estou interessado hoje em dia não são necessariamente as que estava interessado na altura, mas tem sido uma evolução, tem passado por várias fases, mas penso que há algo que as une.
Qual era então a música que ouvias na adolescência, que te levou para esses lados?
Bem... assim numa fase muito inicial da adolescência ouvia imenso Sonic Youth (e toda a cena musical em que se inseriam), possivelmente foi assim uma das primeiras vezes que vi instrumentos a serem utilizados de forma menos convencional. E agora voltando à pergunta de há bocado, realmente houve uma altura, quando descobri o trabalho do Christian Marclay, em que vi uma exposição dele e depois cheguei a ver alguns concertos e a ouvir algumas gravações, e penso que isso foi um momento que me marcou de alguma forma, também pela utilização do material que ele fazia, e pelo próprio som que era gerado pelas coisas que ele construía, os processos que ele explorava e que as peças dele tinham, foram tudo coisas que na altura me influenciaram bastante. Pouco depois descubro o Alvin Lucier, grande mestre. Há muitas outras coisas que também me têm vindo a influenciar, como o trabalho do Rafael Toral, o do Sei Miguel... Mas pronto, depois torna-se difícil enumerar influências especificas, tem sido muitas as coisas que me têm influenciado.
A relação que eu vejo entre todos esses músicos passa um bocado pelo que o Eddie Prévost diz e tenta ensinar, que é a ver um instrumento como algo para tocar “fora da caixa”, que é preciso ser um bocado exploratório e improvisador com os instrumentos. No teu website vi o rádio que tu tocaste, e pareceu-me familiar - estavas no workshop do Eddie Prévost [no OUT.FEST 2015]?
Sim, eu também costumava levar esse rádio para as workshops que ele organizava em Londres, que eram um encontro semanal de improvisação - todas as sextas-feiras à noite na cave de uma igreja, em que toda a gente podia aparecer e juntar-se, e durante uns dois anos eu ia lá com regularidade, e foi por isso que eu participei também no workshop no Barreiro, que vocês organizaram.
E o que é que essas workshops te ensinaram? Como é que te ajudaram a desenvolver o teu trabalho?
Acho que essas workshops na altura tiveram bastante impacto em mim, mas eu hoje em dia não me sinto assim tão próximo ou tão interessado naquilo que a improvisação livre é, que é basicamente naquilo em que o Eddie Prévost se foca. Os workshops na altura foram uma coisa incrível, não só a nível pessoal como a nível social, havia uma dinâmica que para mim era uma novidade e era bastante entusiasmante, a forma como as workshops decorriam e como as pessoas iam tocando... havia pequenas regras, mas havia muita abertura e muita fluidez e nunca ninguém dizia o que devias ou não fazer, e isso durante um tempo fascinou-me bastante. Entretanto acho que foi perdendo um pouco...não sei se me tornei menos naïve em relação a essa ideia, se me fui simplesmente interessando talvez mais por outros lados, por outras coisas...no entanto, também experienciei momentos incríveis lá, de músicos mesmo muito bons, e acho que a certa altura, na fase final do tempo em que frequentei essas workshops, ia lá mais para ver uma ou duas pessoas (o Seymour Wright por exemplo) cujo trabalho me interessava e fascinava, e os 5 ou 10 minutos que os ouvia a tocar valiam as horas que estava por lá…

Dizias-me então que os teus interesses começaram a mudar - consegues dizer qual é a parte da música que te interessa mais neste momento?
Bem, em relação à improvisação livre: eu penso que não é esse o ponto central do que me interessa mais hoje em dia. O meu trabalho, quer electrónico quer acústico sempre envolveu, materialmente, muita volatilidade e por isso a improvisação continua a ser algo muito importante para mim, mas gosto de trabalhar sobre alguns temas, sejam eles coisas que na realidade tenham vindo do trabalho com algum instrumento (no sentido mais lato), da “vida” que essa volatilidade e instabilidade possam gerar, mas também temas espaciais, da ligação do instrumento com o espaço, e tentar de alguma forma criar trabalho que se encaixe neste contexto. A improvisação é obviamente algo que está sempre presente, por que eu tenho estruturas, mas não tenho definido exactamente aquilo que vou fazer, há espaço para eu poder reagir às coisas da forma que me pareça mais acertada no momento. A própria gaita de fole, sendo um instrumento tão bruto, tão primitivo de certa forma, e se calhar as próprias limitações do instrumento, penso que são uma boa ferramenta para explorar este tipo de ideias, porque de certa forma eu acho que essa simplicidade e crueza depois permitem que também as outras coisas tenham alguma proeminência, e alguma importância, que sejam ouvidas e que sejam perceptíveis, e a gaita acaba por ser um pouco o trigger para esses eventos....
Isso leva-me a outra pergunta - eu noto na tua música, especialmente o teu trabalho mais recente, que há uma certa dualidade, entre o folclore, coisas bastante primordiais, com um ângulo mais tecnológico e mais maquinal. Não sei se é algo com que concordes…
Não é certamente algo intencional. As ferramentas que uso tendem muitas vezes a definir aquilo que eu faço. Apareceu-me a gaita de foles, e também outro tipo de coisas que tenho usado, e a perspectiva é mais do género, “Com este instrumento o que posso fazer, o que é que o instrumento me dá, como é que o consigo aplicar no que me interessa fazer sonoramente?” No concerto que vou apresentar no OUT.FEST o computador está a gerar simplesmente uma frequência, uma onda dente-de-serra (sawtooth) e tem um som muito parecido ao da gaita de fole, acaba por ser quase um segundo tocador, que depois gera o tal confronto de frequências...é um pouco difícil de definir, mas como já referi interessa-me a exploração de instabilidades no processo e nos mecanismos que vou construindo, eu tento fazer também um pouco isso na gaita de foles. Mas como disse não é uma decisão consciente, gosto de trabalhar com a crueza, interessa-me alguma secura nas coisas, nos materiais, e pronto, a partir daí parto para a construção musical, para desenvolver o trabalho que faço, mas na realidade para mim são tudo coisas que se encaixam mentalmente no mesmo sítio: estar a usar a gaita de foles ou o sintetizador ou um circuito construído ou um rádio, a finalidade para mim é a mesma, não há nenhum conceito por detrás disso.
Usas mesmo os instrumentos porque gostas do som...
Sim, e porque me interessa a própria crueza e a brutalidade de coisas como o ruído branco, do som da gaita de foles, que também é algo bastante simples, interesso-me a simplicidade no trabalho electrónico, mesmo muito... digamos que a ideia de economia, de fazer muito com pouco é algo que me interessa bastante e que eu tento ao máximo procurar nos processos e nas coisas que crio.
Queria perguntar-te sobre o trabalho que vais apresentar no OUT.FEST, o “Gaita Contra Computador”, que é um título que traz uma ideia de oposição, de combate quase...Tu mencionaste que há um tom do computador que é muito parecido com o da gaita de fole, podes falar-nos um pouco mais sobre esse trabalho?
O “Gaita Contra Computador” é o título de um CD que eu editei no ano passado, e sim, o trabalho assenta na criação de algumas peças que são relativamente curtas, algumas das quais influenciaram o nome do disco e envolvem a gaita usada sem amplificação num espaço, enquanto que o computador está a gerar uma frequência programada por mim que gera tons que se assemelham muito ao tom da gaita, e a ideia é que quando as frequências se cruzam no espaço criam-se determinados efeitos acústicos (batimentos, por exemplo)...A minha intenção é dar a ideia de que há um novo som a certa altura, a união entre os dois sons na qual a dado ponto deixas de conseguir perceber o que é o quê... Mas fundamentalmente interessa-me saber como os sons se cruzam no espaço, é como se tivesse basicamente uma outra pessoa ali a tocar comigo, mas quando exploras frequências muito, muito próximas e te moves no espaço, há pequenos efeitos que se geram, neste caso no espaço acústico, na sala do concerto.
Depois também vou possivelmente apresentar algumas peças acústicas, sem a utilização do computador, em que exploro a gaita de fole, os seus limites físicos, tento puxar assim a palheta para registos de som que não são propriamente os registos aos quais é suposto o instrumento chegar, à procura de falhas, e a explorar essas falhas e essa instabilidade. Depois há outra peça que envolve acrescentar um tubo à gaita de foles e apontar essa frequência para uns jarros que vão estar no chão, e explorar a frequência de ressonância dos jarros - quando aproximas o som da gaita dos jarros há uma nova frequência que surge, e é uma peça focada nessa interação...e é à volta destas ideias que vai ser o meu concerto - são peças que se assemelham de alguma forma ao que está no disco mas que estão em constante evolução, cada vez que as apresento ou ensaio elas vão sofrendo ajustes e vão mudando ao longo do tempo.

Até porque o próprio espaço influencia a forma como as peças soam - lembro-me por exemplo de termos tido por cá o Erwan Keravec, que estava muito satisfeito com a reverberação e amplificação natural da igreja na qual tocou...Como tem sido a tua experiência a tocar em diferentes espaços, também sentes que tem um grande impacto na forma como tocas?
Claro, tem sempre bastante, não só nas peças acústicas mas também naquelas em que uso o computador... a ressonância do espaço é algo que favorece um pouco as peças, digo eu, um espaço muito seco possivelmente não funcionaria tão bem...possivelmente teria que pensar noutras coisas, mas sim, a acústica do espaço é algo bastante importante, que eu tenho que ter em conta sempre que estou a tocar, e neste caso já fui à biblioteca [Municipal do Barreiro] ver e experimentar tocar lá e isso acaba por informar um pouco aquilo que vou apresentar…
Estavas a falar há pouco de intensidade, e como isso te interessa muito. Eu queria perguntar-te sobre o “Estrada Longa” - eu estive a ouvi-lo há alguns dias e senti que tivesse algo próximo do motorik, não tanto na vertente rítmica do krautrock, mas como uma certa propulsão e transe, não de forma intensa mas a transmitir movimento, a deslocação de bicicleta...Que foi o que inspirou o “Estrada Longa”, a tua viagem de na N2 de bicicleta no meio da pandemia, certo? Podias falar um pouco sobre a tua viagem, e como isso influenciou o disco?
Sim, foi isso. Eu fiz a viagem sozinho de bicicleta, e quando o fiz não tinha planeado criar nada a partir daí, simplesmente comecei a andar e a ver imensos nomes de terras aos quais achava piada, e decidi no primeiro dia começar a gravar o nome dos sítios por onde ia passando. Quase todos, aqueles que me ia lembrando, mas também não fazia isso constantemente: primeiro passava uns quantos, gravava no telemóvel, depois ia andando e gravava outros, e cheguei ao final da viagem e tinha quase 150 nomes de terras, de Trás-os-Montes ao Algarve.
Na altura passei algum tempo a pensar como é que iria usar aquele material. As gravações foram feitas no telemóvel e muitas vezes a pedalar, e apesar de achar que tinham algum interesse não consegui propriamente encaixá-las, e pronto, achei que só com o material cru não teria tanto interesse (apesar de também me interessar esse aspecto). O que acabei por fazer foi pegar num par de sintetizadores que tinha em casa e que costumo usar, que basicamente permitem criar uma espécie de padrões com imensa instabilidade e volatilidade envolvida na forma como os sintetizadores estão ligados, há um aspecto cíclico da coisa, mas não linear de alguma forma, e eu pensei que se calhar as duas coisas se pudessem unir, e então criei outros padrões, para cada dia de viagem, e regravei os nomes das terras por onde passei a cada dia.
E foi assim que surgiu o disco - foi como falaste, há aquele aspecto cíclico dos sintetizadores, e procurei também passar alguma monotonia, interessou-me essa ideia dos dias longos, das estradas que nunca mais acabam, mas ao mesmo tempo estão em constante mutação...mas pronto, foi uma peça que surgiu e que teve aquele resultado final, o tal disco. Não sei bem se faz sentido dar-lhe seguimento ou não, mas esse trabalho ficou concluído ali, naquela peça, que às vezes penso que podia ter sido bastante mais longa: em vez de ter 50 minutos devia ter 4 horas, mas ficou assim…

A última pergunta se calhar é um bocadinho parva, mas: como é que foste tornar-te gaiteiro dos Belenenses?
(risos) A minha ligação ao Belenenses é familiar, o meu avô e bisavô eram ali de Belém, sou sócio desde que nasci, etc...O clube desceu para a última divisão recentemente, por causa dos conflitos com a B-SAD, e no primeiro jogo da sexta divisão eu decidi levar a gaita. Já tinha falado com alguns amigos que estavam ligados à claque, e comecei a tocar o hino do clube, começou toda a gente a cantar no estádio, e ao fim do dia já estavam vídeos no YouTube a ligar aquele momento a uma antiga tradição dos anos vinte, os quinze minutos à Belenenses - supostamente o clube naquela época fez uma série de remontadas em jogos muito importantes, onde viravam os jogos nos últimos 15 minutos, incluindo um específico contra o Benfica que ficou muito célebre. E assim durante muitos anos os sócios faziam imenso barulho nos últimos quinze minutos, já ouvi dizer que com apitos e panelas, e alguém fez essa colagem à tradição, por isso agora nos jogos, nos últimos 15 minutos, toco o hino e mais algumas músicas da claque (a Fúria Azul) na gaita de fole, e tornou-se num acontecimento nos jogos. Agora sinto assim aquela responsabilidade à qual não posso falhar, e todos os domingos estou lá com a gaita de fole, já somos dois gaiteiros na verdade...e pronto, a ligação da gaita ao Belenenses é essa.
Isso é muito fixe. Tu próprio não sabias dessa tradição, não é?
Sabia, o meu avô contou-me em criança, mas a tradição não era com a gaita, sabes, antigamente diz que se fazia muito barulho na bancada ou que se tocava um apito três vezes, mas entretanto aquilo morreu completamente, há livros dos anos 60 de gente ligada ao clube que dizia que os jogadores já não sabiam o que eram os 15 minutos à Belenenses...isto nos anos 60, e eu nos anos 90 ainda ouvi alguns apitos, mas era uma coisa praticamente esquecida, e agora voltou a ter algum significado, é engraçado.
Entrevista por Tiago Franco e Diogo Carneiro. Fotos por Pedro Roque (a primeira) e Nuno Bernardo (as restantes).
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