Interview with Vasco Alves (OUT.FEST 2021)

In the week prior to the start of the October moment of OUT.FEST 2021, we had the chance to talk to Vasco Alves - bagpiper for 'Os Belenenses' football club, member of VA AA LR and heroic investigator of acoustical phenomena and the materiality of sound, whose trajectory's been discreet but continuously fascinating, resorting to numerous sound sources and methodologies including synthesis and amplification techniques, tape recorders, signal processing and – more recently – bagpipes.

 

 

Can you tell me a bit about your experience with the bagpipes? How did you start playing them and how did your relationship with the instrument develop over time?

I started learning the bagpipes in 2014, at the Lisbon Galician Centre, and during the first years I had a traditional learning experience, but I always wanted to use the instrument in a less conventional, more exploratory way, closer to the themes I’m interested in, and that’s something I was only able to do a few years after I started playing the bagpipes. I think it was about three years ago, maybe in 2018, I started preparing a few pieces which, although they also include some electronic material, work on acoustic phenomena and psychoacoustics above all. I always try to explore some kind of effect within that field.

And what drove you to this instrument specifically? Because in 2014 you were already active in making music, right?

Sim, já tocava há bastante tempo…eu tive duas experiências que foram algo surpreendentes, tanto que quando ocorreram eu nem pensava que fosse um dia aprender um instrumento. Uma foi um concerto do Paul Dunmall em Londres - ele está mais associado até ao jazz e ao improv como saxofonista, mas tem uma coleção pessoal de gaitas de fole de todo o mundo. Eu e um amigo convidamo-lo para um concerto que estávamos a organizar quando eu vivia lá, e ele teve uma actuação onde tocou com várias gaitas de fole ao longo da performance, e houve ali momentos incríveis, que eu não esperava, mesmo a nível material do som...quando a gaita era amplificada, se fechasses os olhos imaginavas que era um concerto de laptop, de música de computador...bem, havia elementos bastante surpreendentes, e depois quando voltei para Portugal, em 2014, acabei por ver um ou dois concertos em que o instrumento também era utilizado, já fora deste contexto, mas na altura decidi ir aprendê-lo, de uma forma um bocado espontânea. E pronto, gostei e continuei e neste momento é possivelmente o instrumento com que estou a trabalhar mais, apesar de também explorar temáticas parecidas às da gaita quando trabalho com electrónica.

On that topic, when did you become interested in electroacoustic music? Was there a specific moment when you discovered that kind of music and thought that was what you wanted to explore?

I don’t know if I can name a specific moment, I think that it’s probably related to the music I heard during my adolescence, which led me to have some interest in exploring, in following the more exploratory path in music, the less conventional one, so to speak. And in my university years, if I’m not mistaken, I learned how to make some contact microphones and some other small things (I think my first recordings were with that material actually, even if they were done in a very naïve and intuitive way), and well, things evolved from there, I kept being interested in instrument building, in exploring materials…Obviously, the things I’m interested in nowadays aren’t necessarily the ones I was interested in at the time, but it’s been evolving, going through several phases, although I think there’s something that unites them.

So what was the music you heard as a teenager that led you in that direction?

Bem... assim numa fase muito inicial da adolescência ouvia imenso Sonic Youth (e toda a cena musical em que se inseriam), possivelmente foi assim uma das primeiras vezes que vi instrumentos a serem utilizados de forma menos convencional. E agora voltando à pergunta de há bocado, realmente houve uma altura, quando descobri o trabalho do Christian Marclay, em que vi uma exposição dele e depois cheguei a ver alguns concertos e a ouvir algumas gravações, e penso que isso foi um momento que me marcou de alguma forma, também pela utilização do material que ele fazia, e pelo próprio som que era gerado pelas coisas que ele construía, os processos que ele explorava e que as peças dele tinham, foram tudo coisas que na altura me influenciaram bastante. Pouco depois descubro o Alvin Lucier, grande mestre. Há muitas outras coisas que também me têm vindo a influenciar, como o trabalho do Rafael Toral, o do Sei Miguel... Mas pronto, depois torna-se difícil enumerar influências especificas, tem sido muitas as coisas que me têm influenciado.

A relação que eu vejo entre todos esses músicos passa um bocado pelo que o Eddie Prévost diz e tenta ensinar, que é a ver um instrumento como algo para tocar “fora da caixa”, que é preciso ser um bocado exploratório e improvisador com os instrumentos. No teu website vi o rádio que tu tocaste, e pareceu-me familiar - estavas no workshop do Eddie Prévost [no OUT.FEST 2015]?

Sim, eu também costumava levar esse rádio para as workshops que ele organizava em Londres, que eram um encontro semanal de improvisação - todas as sextas-feiras à noite na cave de uma igreja, em que toda a gente podia aparecer e juntar-se, e durante uns dois anos eu ia lá com regularidade, e foi por isso que eu participei também no workshop no Barreiro, que vocês organizaram.

And what did you learn from those workshops? How did they help you develop your work?

Acho que essas workshops na altura tiveram bastante impacto em mim, mas eu hoje em dia não me sinto assim tão próximo ou tão interessado naquilo que a improvisação livre é, que é basicamente naquilo em que o Eddie Prévost se foca. Os workshops na altura foram uma coisa incrível, não só a nível pessoal como a nível social, havia uma dinâmica que para mim era uma novidade e era bastante entusiasmante, a forma como as workshops decorriam e como as pessoas iam tocando... havia pequenas regras, mas havia muita abertura e muita fluidez e nunca ninguém dizia o que devias ou não fazer, e isso durante um tempo fascinou-me bastante. Entretanto acho que foi perdendo um pouco...não sei se me tornei menos naïve em relação a essa ideia, se me fui simplesmente interessando talvez mais por outros lados, por outras coisas...no entanto, também experienciei momentos incríveis lá, de músicos mesmo muito bons, e acho que a certa altura, na fase final do tempo em que frequentei essas workshops, ia lá mais para ver uma ou duas pessoas (o Seymour Wright por exemplo) cujo trabalho me interessava e fascinava, e os 5 ou 10 minutos que os ouvia a tocar valiam as horas que estava por lá…

 

 

Dizias-me então que os teus interesses começaram a mudar - consegues dizer qual é a parte da música que te interessa mais neste momento?

Well, about free improvisation: I think that’s not the core of what I’m interested in nowadays. My work, be it electronic or acoustic, always involved a lot of volatility and so improvisation is still very important to me, but I like to work on themes, be them things that came from working with an instrument (in the wider sense), from the “life” that volatility and instability can generate, but also spatial themes, of the connection between the instrument and the space, and trying to somehow find a way to create work which fits in this context. Improvisation is obviously always present, because I have structures but I don’t define what I do exactly, there’s space for me to react to things in the way that seems the most appropriate in the moment. The bagpipes themselves, being such a rough, primitive instrument in a way, and maybe the instrument’s limitations themselves, I think they’re a good way to explore this kind of ideas, because in a way I feel like that simplicity and rawness then allow others parts to come to the fore, to have some importance, be heard and perceptible, and the bagpipes end up being the trigger for those events, in a sense… trigger para esses eventos....

Isso leva-me a outra pergunta - eu noto na tua música, especialmente o teu trabalho mais recente, que há uma certa dualidade, entre o folclore, coisas bastante primordiais, com um ângulo mais tecnológico e mais maquinal. Não sei se é algo com que concordes…

Não é certamente algo intencional. As ferramentas que uso tendem muitas vezes a definir aquilo que eu faço. Apareceu-me a gaita de foles, e também outro tipo de coisas que tenho usado, e a perspectiva é mais do género, “Com este instrumento o que posso fazer, o que é que o instrumento me dá, como é que o consigo aplicar no que me interessa fazer sonoramente?” No concerto que vou apresentar no OUT.FEST o computador está a gerar simplesmente uma frequência, uma onda dente-de-serra (sawtooth) e tem um som muito parecido ao da gaita de fole, acaba por ser quase um segundo tocador, que depois gera o tal confronto de frequências...é um pouco difícil de definir, mas como já referi interessa-me a exploração de instabilidades no processo e nos mecanismos que vou construindo, eu tento fazer também um pouco isso na gaita de foles. Mas como disse não é uma decisão consciente, gosto de trabalhar com a crueza, interessa-me alguma secura nas coisas, nos materiais, e pronto, a partir daí parto para a construção musical, para desenvolver o trabalho que faço, mas na realidade para mim são tudo coisas que se encaixam mentalmente no mesmo sítio: estar a usar a gaita de foles ou o sintetizador ou um circuito construído ou um rádio, a finalidade para mim é a mesma, não há nenhum conceito por detrás disso.

Usas mesmo os instrumentos porque gostas do som...

Sim, e porque me interessa a própria crueza e a brutalidade de coisas como o ruído branco, do som da gaita de foles, que também é algo bastante simples, interesso-me a simplicidade no trabalho electrónico, mesmo muito... digamos que a ideia de economia, de fazer muito com pouco é algo que me interessa bastante e que eu tento ao máximo procurar nos processos e nas coisas que crio.

Queria perguntar-te sobre o trabalho que vais apresentar no OUT.FEST, o “Gaita Contra Computador”, que é um título que traz uma ideia de oposição, de combate quase...Tu mencionaste que há um tom do computador que é muito parecido com o da gaita de fole, podes falar-nos um pouco mais sobre esse trabalho?

O “Gaita Contra Computador” é o título de um CD que eu editei no ano passado, e sim, o trabalho assenta na criação de algumas peças que são relativamente curtas, algumas das quais influenciaram o nome do disco e envolvem a gaita usada sem amplificação num espaço, enquanto que o computador está a gerar uma frequência programada por mim que gera tons que se assemelham muito ao tom da gaita, e a ideia é que quando as frequências se cruzam no espaço criam-se determinados efeitos acústicos (batimentos, por exemplo)...A minha intenção é dar a ideia de que há um novo som a certa altura, a união entre os dois sons na qual a dado ponto deixas de conseguir perceber o que é o quê... Mas fundamentalmente interessa-me saber como os sons se cruzam no espaço, é como se tivesse basicamente uma outra pessoa ali a tocar comigo, mas quando exploras frequências muito, muito próximas e te moves no espaço, há pequenos efeitos que se geram, neste caso no espaço acústico, na sala do concerto.

Depois também vou possivelmente apresentar algumas peças acústicas, sem a utilização do computador, em que exploro a gaita de fole, os seus limites físicos, tento puxar assim a palheta para registos de som que não são propriamente os registos aos quais é suposto o instrumento chegar, à procura de falhas, e a explorar essas falhas e essa instabilidade. Depois há outra peça que envolve acrescentar um tubo à gaita de foles e apontar essa frequência para uns jarros que vão estar no chão, e explorar a frequência de ressonância dos jarros - quando aproximas o som da gaita dos jarros há uma nova frequência que surge, e é uma peça focada nessa interação...e é à volta destas ideias que vai ser o meu concerto - são peças que se assemelham de alguma forma ao que está no disco mas que estão em constante evolução, cada vez que as apresento ou ensaio elas vão sofrendo ajustes e vão mudando ao longo do tempo.

 

 

Até porque o próprio espaço influencia a forma como as peças soam - lembro-me por exemplo de termos tido por cá o Erwan Keravec, que estava muito satisfeito com a reverberação e amplificação natural da igreja na qual tocou...Como tem sido a tua experiência a tocar em diferentes espaços, também sentes que tem um grande impacto na forma como tocas?

Claro, tem sempre bastante, não só nas peças acústicas mas também naquelas em que uso o computador... a ressonância do espaço é algo que favorece um pouco as peças, digo eu, um espaço muito seco possivelmente não funcionaria tão bem...possivelmente teria que pensar noutras coisas, mas sim, a acústica do espaço é algo bastante importante, que eu tenho que ter em conta sempre que estou a tocar, e neste caso já fui à biblioteca [Municipal do Barreiro] ver e experimentar tocar lá e isso acaba por informar um pouco aquilo que vou apresentar…

Estavas a falar há pouco de intensidade, e como isso te interessa muito. Eu queria perguntar-te sobre o “Estrada Longa” - eu estive a ouvi-lo há alguns dias e senti que tivesse algo próximo do motorik, não tanto na vertente rítmica do krautrock, mas como uma certa propulsão e transe, não de forma intensa mas a transmitir movimento, a deslocação de bicicleta...Que foi o que inspirou o “Estrada Longa”, a tua viagem de na N2 de bicicleta no meio da pandemia, certo? Podias falar um pouco sobre a tua viagem, e como isso influenciou o disco?

Yeah, that was it. I made the trip on my own on a bicycle, and at the time I hadn’t planned to make anything out of it, I simply started riding and seeing tonnes of place names that I liked, and so I decided on the first day to start recording the names of the places I passed through. Almost all of them, although I didn’t do it constantly – first I’d pass through a few, record it on my phone, then I’d go a little further and record some more, and by the end of the trip I had almost 150 place names recorded, from Trás-os-Montes to the Algarve.

Then I spent some time thinking about how to use that material. Those were phone recordings, and often I was pedalling as I recorded, so even though I thought they were interesting I couldn’t quite get them to fit, and so I concluded that the raw material wouldn’t be as interesting (even though I find that aspect interesting as well). What I ended up doing was to grab a pair of synthesizers I had at home and which I use often and which basically allow you to create a sort of patterns with a lot of instability and volatility due to the way they are connected, there’s a cyclical aspect to it, but non-linear in a fashion, and I thought that the two things could be joined, so I created other patterns, one for each day of my trip, and I re-recorded the names of the places I passed through each day.

E foi assim que surgiu o disco - foi como falaste, há aquele aspecto cíclico dos sintetizadores, e procurei também passar alguma monotonia, interessou-me essa ideia dos dias longos, das estradas que nunca mais acabam, mas ao mesmo tempo estão em constante mutação...mas pronto, foi uma peça que surgiu e que teve aquele resultado final, o tal disco. Não sei bem se faz sentido dar-lhe seguimento ou não, mas esse trabalho ficou concluído ali, naquela peça, que às vezes penso que podia ter sido bastante mais longa: em vez de ter 50 minutos devia ter 4 horas, mas ficou assim…

 

 

The last question might be a bit of a silly one, but: how did you become the piper for Belenenses [a football club based in Belém, Lisbon]?

(risos) A minha ligação ao Belenenses é familiar, o meu avô e bisavô eram ali de Belém, sou sócio desde que nasci, etc...O clube desceu para a última divisão recentemente, por causa dos conflitos com a B-SAD, e no primeiro jogo da sexta divisão eu decidi levar a gaita. Já tinha falado com alguns amigos que estavam ligados à claque, e comecei a tocar o hino do clube, começou toda a gente a cantar no estádio, e ao fim do dia já estavam vídeos no YouTube a ligar aquele momento a uma antiga tradição dos anos vinte, os quinze minutos à Belenenses - supostamente o clube naquela época fez uma série de remontadas em jogos muito importantes, onde viravam os jogos nos últimos 15 minutos, incluindo um específico contra o Benfica que ficou muito célebre. E assim durante muitos anos os sócios faziam imenso barulho nos últimos quinze minutos, já ouvi dizer que com apitos e panelas, e alguém fez essa colagem à tradição, por isso agora nos jogos, nos últimos 15 minutos, toco o hino e mais algumas músicas da claque (a Fúria Azul) na gaita de fole, e tornou-se num acontecimento nos jogos. Agora sinto assim aquela responsabilidade à qual não posso falhar, e todos os domingos estou lá com a gaita de fole, já somos dois gaiteiros na verdade...e pronto, a ligação da gaita ao Belenenses é essa.

That’s really cool. You weren’t aware of that tradition yourself, were you?

Sabia, o meu avô contou-me em criança, mas a tradição não era com a gaita, sabes, antigamente diz que se fazia muito barulho na bancada ou que se tocava um apito três vezes, mas entretanto aquilo morreu completamente, há livros dos anos 60 de gente ligada ao clube que dizia que os jogadores já não sabiam o que eram os 15 minutos à Belenenses...isto nos anos 60, e eu nos anos 90 ainda ouvi alguns apitos, mas era uma coisa praticamente esquecida, e agora voltou a ter algum significado, é engraçado.

Interview by Tiago Franco and Diogo Carneiro. Pictures by Pedro Roque (the first one) and Nuno Bernardo (the remaining).

 

 

 

 

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