Entrevista - Clothilde e HOBO

Clothilde é o alter-ego musical de Sofia Mestre, colorista, fotógrafa, desenhadora e não só, que se encontrou enquanto música na viragem para os 40. Trabalha a partir da herança de pós-minimalistas, improvisadoras e compositoras de mente aberta, como Pauline Oliveros, Maryanne Amacher, Daphne Oram, Eliane Radigue ou Delia Derbyshire, para criar a partir de bases electrónicas modulares – tecnologia feita pelo seu companheiro Zé, aka HOBO -, novas paisagens e realidades emocionais e estéticas. Em Outubro de 2018, durante a edição do OUT.FEST desse ano, onde testemunhamos uma bela actuação da artista na Escola de Jazz do Barreiro, o Alexandre Ribeiro e o Vasco Completo tiveram a oportunidade de ter uma curta conversa com os dois - Clothilde e HOBO - sobre o sistema electrónico único que usam e as suas origens, bem como o despertar de Clothilde para a criação músical.

Quando é que começaste a construir este tipo de máquinas?

HOBO: Comecei a pensar nisto aí há uns seis, sete anos. Na altura andava a fazer umas máquinas em cartão (sempre usei os materiais que tinha à mão para fazer coisas) e no meio das buscas de materiais para usar fui a casa do meu pai, que foi rádio montador na Guiné durante a guerra do ultramar, e ele tinha lá uma breadboard e mais uns chips e outras coisinhas que me disse para levar. Eu pus aquilo no saco e ficou numa gaveta durante para aí um ano, até depois tropeçar numa coisa qualquer que me lembrou que tinha aquilo por casa. Depois comecei a construir coisas, primeiro um amplificador numa caixa de Scotch-Brite, uma coisa muito básica, e fui expandindo a partir dai. Comecei a pensar, “Ok, quero que o som saia para algum lado, por isso preciso de um amplificador”. Foi o passo número um. Passo número dois: “temos de fazer uns osciladores, vamos a isso”. A partir dai foi sempre a crescer, continuei a pesquisar, ver o que já foi feito e o que conseguia fazer de diferente. Hoje com a internet consegues dar passos gigantes com as coisas – dantes era muito mais complicado, a informação estava só em livros, mas agora fazes uma buscazinha, fica mais ou menos explicito o que tens que fazer, e depois a partir do que já está feito é andar para trás, explorar a ficha técnica do chip, e partir dai para criar as tuas próprias coisas. O processo tem sido um bocado assim, autodidata e sem grandes pretensiosismos, fazer a coisa porque me dá prazer.

No caso específico destas máquinas que a “maquinista” usa, podes explicar-nos melhor como funcionam?

CLOTHILDE: São muitas…

H: Não as trouxemos todas…estão ali umas dez, mais uns teclados, e no total já devemos ter umas 20…a ideia é que cada uma das maquinas possa ser usada independentemente e produzir som, quase como um sistema modular, mas não completamente, porque no modular tens que levar a tralha toda atrás e aqui se quiser levar só uma máquina posso mete-la debaixo do braço e leva-la comigo, e fazer o output do sinal ou diretamente por jack ou então com um jack banana para poder mandar o som para outro lado qualquer. Queria que fosse sempre muito versátil, para poder tocar tanto com uma, ou com duas, ou com tudo….

C: Foi curioso porque só agora é que podemos tocar juntos – dantes não tínhamos máquinas suficientes para tocar os dois. Eu toco sozinha muito fruto disso - ele tem um projeto com um amigo em que também usa estas máquinas e se tocássemos os dois ao mesmo tempo íamos “desfazer-nos” um ao outro, porque para conseguir certos sons é necessário que elas estejam ligadas entre si, para modular, filtrar, whatever. Mas agora já conseguimos, e o próximo passo é começarmos também a ter um projecto e a tocar juntos.

Como começou esta tua atividade enquanto música?

C: Eu sempre adorei música, mas nunca pretendi fazer música, nunca desejei isto – propuseram-me, porque sabiam que eu tocava com ele [HOBO], e aconteceu. Nós temos uma casa no Meco com amigos, para descansar, e ele levava as máquinas e ficávamos ali a brincar, mas sem pretensão qualquer de chegar a vir a tocar um dia…

Sou amiga da Sonja da Labareda, por quem eu lancei o álbum, há muitíssimos anos e ela conhece-me muito bem – melhor que eu própria pelos vistos – e desafiou-me a fazer alguma coisa, e eu fiquei tipo “tás doida…eu?” Nunca foi algo que tivesse desejado antes sequer, mas acabei por ficar a pensar que não podia ficar a vida toda a pensar nisso e foi assim…

Lançaste recentemente o teu primeiro LP, o “Twitcher”… o teu percurso tem alguma coisa a ver com a música?

C: Nada.

Podes falar um pouco sobre isso?

C: Eu sou fanática por música, sempre fui, desde pequenina – quando a minha mãe punha alguma coisa que eu não gostava a dar eu desatava a chorar. Isto é verdade! Mas eu nunca trabalhei em música.

O meu avô era o baterista de uma banda fabulosa de jazz nos anos vinte, a minha mãe esforçou-se imenso para eu estudar música (ela queria estudar música quando era mais nova e ele não deixou porque ela era menina), o meu tio toca tudo…isto está lá, afinal.

Eu trabalhei muitos anos em publicidade e cinema, fui colorista, gosto de desenhar, fotografar, agora estou a montar um projeto com amigas que ainda estamos a ver o que é que vai dar…Mas isto… Fiz o “Birdwatching”, que foi para isso que a Sonja me desafiou, para uma compilação, foi ai que eu disse “epá…olha, vou dedicar-me e ver, prometo que não te vou deixar ficar mal, nem que eu me mate”, que eu sou um bocadinho exigente comigo própria, demasiado até. E depois ela veio-me com a história do álbum, e eu ai fiquei um bocado “afinal já não é só uma…” mas já tinha passado a barreira, já tinha tocado a primeira vez no Damas… Não tive meio termo, fiz o “Birdwatching”, toco a primeira vez no Damas, a segunda no Lounge, a terceira no Walk&Talk dos Açores, depois na ZDB, eu já só dizia “Poça, já só falta o Maria Matos” (risos) Não sei o que aconteceu, eu não estava a espera, mas eu sei que tenho ouvido, sei que as coisas estão aqui. Eu não conto os tempos, eu sinto, é uma vida inteira a ouvir música e com muita paixão, eu acho que é isso. Fiz o álbum (fizemos o lançamento a 25 de Maio) e estranhamente saiu bem! Eu fiquei muito contente, não sabia o que ia sair…

Como foi a receção?

C: Está a ser uma loucura, eu não tenho vida para ser artista…(risos) não tenho tempo…Só o mês passado dei três concertos, no Festival Exquisito no dia 13, no dia 15 estava em Santiago de Compostela no WOS, no dia 22 foi no Porto no Passos Manuel. Essa última foi uma noite organizada pela Fungo, em que o Zé tocou com o Marco (o Citizen:Kane), porque não dava para tocarmos os dois, mais o Nuno Patrício e o Nicolai que são DJs da Fungo, tocamos todos, e agora estou aqui. E já tenho várias coisas para responder, entretanto…até para 2020, e eu fico muito nervosa com estas coisas, não sei se estarei viva sequer (risos). Mas é um projecto super interessante mesmo, é uma peça de teatro e acho que tem tudo a ver com a minha cabeça.

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